Discurso de Tomada de Posse

2024-07-14

Se há três anos me dissessem que um dia seria presidente da SdDUP eu ia atrás dessa pessoa para lhe bater porque mentir é feio e está mal mentido. Mas a vida tem as suas surpresas, o tempo passou, e, hoje, eu e a minha, ou melhor, a nossa direção estamos aqui para tomar posse e prestes a iniciar um novo mandato.

Por mais que me esforce (e acreditem que ainda queimei uns quantos neurónios a pensar nisto) é impossível descrever os três anos que passei nesta casa numa única palavra. Foram três anos de debate, três anos de associativismo, três anos de aprendizagem, três anos de camaradagem, mas, acima de tudo, foram três anos de família. Contudo, não nos deixemos iludir pela nostalgia e pela saudade, porque não foram, de todo, três anos fáceis e quem esteve cá sabe disso. Houve semanas que pareceram décadas, mas a cada dificuldade que superamos, a cada vitória que conquistamos (e entre breaks, CA Teams, finais de iniciados, top dez oradores e finais gerais foram tantas que confesso que nem me dei ao trabalho de as contar) o meu coração batia cada vez mais forte com o azul d’Esta Casa que me tão bem me acolheu.

O José Mário Branco cantava que “Todo o mundo é composto de mudança”, e se houve algo que me aconteceu nos últimos três anos foi exatamente isso: mudança. Ignorando as mudanças óbvias de que agora tenho óculos, barba e consideravelmente mais olheiras do que há três anos, a SdDUP mudou-me e tornou um miúdo pouco ciente do mundo que o rodeava numa pessoa que se interessa e tenta ter um papel ativo na transformação desse mundo. Foi a SdDUP (e o debate competitivo) que transformaram um puto que percebia um pouco de física, de computadores e pouco mais numa pessoa que procura ler sobre áreas como política, economia, sociologia, relações internacionais ou filosofia e que de outra forma nunca teria encontrado esta segunda paixão.

É este o poder do Debate. O debate torna-nos curiosos. Debatemos sobre tantos temas diferentes, conhecemos tantas pessoas interessantes de áreas tão diversas que começamos a criar este bichinho de querer saber mais. Paulo Freire diz-nos que a educação não muda o mundo, que a educação muda as pessoas e as pessoas, essas, sim, mudam o mundo. Acredito que isto também se aplica ao debate: O debate não muda o mundo, o debate muda pessoas e as pessoas mudam o mundo. É também isto que pretendemos continuar a fazer, utilizar o debate para mudar as pessoas que vão mudar o mundo. Dar-lhes voz, dar-lhes autoconfiança, dar-lhes empatia e dar-lhes conhecimento. Empoderá-las com as armas e as ferramentas que lhes permitam lutar pela transformação das utopias de hoje nas realidades de amanhã. Acreditamos que debate sem justiça social é jardinagem, e é por um debate cada vez mais justo e cada vez mais interventivo que lutamos.

Tudo isto deve-se às várias pessoas que me acolheram n’Esta Casa. Todas as pessoas que tornaram um hobby nicho de dizer umas quantas frases bonitas improvisadas durante 7min, em algo que orienta o meu dia-a-dia e chateia o meu pai quando me tem de ir buscar à estação às tantas da noite depois dos debates regulares. Podia passar horas a enumerar as pessoas que contribuíram para isto, mas, infelizmente, não temos esse tempo e a minha memória ia deixar pessoas de fora, mas há alguns agradecimentos que preciso de fazer:

Por fim, a todas as pessoas que tornaram mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim da minha passagem no debate competitivo, o mais sincero obrigado.

No ano em que comemoramos os 50 anos do 25 de Abril, os 50 anos de liberdade, os 50 anos do dia em que a luta do povo fez com que “emergíssemos da noite e do silêncio”, não nos podemos esquecer que Abril não foi o fim, mas sim o início da luta. Abril é uma luta constante e cabe-nos lutar todos os dias dentro e fora da sala de debate pelo cumprimento das promessas de Abril. Lutar por uma sociedade verdadeiramente livre, por uma sociedade verdadeiramente democrática, e, enquanto estudantes universitários, por um ensino público, democrático, de qualidade e gratuito. Perante a ascensão da extrema-direita, não só em Portugal, mas em todo o mundo, os valores de Abril e as ferramentas de empatia, tolerância e espírito crítico que o debate nos ajuda a desenvolver mostram-se cada vez mais como as armas necessárias para a combater. Acredito que é também o nosso dever enquanto Sociedade de Debates lutar para que nunca mais se fechem as portas que Abril abriu.

Resta-me só agradecer pelo incrível trabalho a todas as pessoas que terminam hoje as suas funções e desejar os maiores sucessos a todas as que as iniciam. Tenho plena confiança na direção e órgãos sociais que hoje tomam posse e sei que, juntos, seremos capazes de construir sobre os sucessos do passado, e atingir vitórias ainda mais bonitas. Sei que tenho a melhor equipa para isso, e espero estar à altura da missão que me foi confiada por vocês, e pelos restantes associados.

E, porque “Esta Casa” simboliza muito, mas muito, mais do que as duas palavras que aparecem no início de uma moção de BP, espero que saibam que podem contar comigo para tudo e que cá estarei sempre que precisarem, porque Casa é isso mesmo. A SdDUP é a minha, e espero que também seja a vossa e a de todas as gerações futuras de SdDUPies.

Até amanhã, camaradas, que enquanto houver estrada para andar, o debate há de continuar.

Ao Bom, Ao Belo, Ao Amor, e, talvez, à Verdade.